Petróleo US 110 e OPEP em Colapso|Estreito de Ormuz ainda fechado
Guerra e OPEP
O petróleo Brent superou US$ 111 nesta terça-feira — e não foi por falta de oferta, mas por excesso de medo. O impasse entre Washington e Teerã sobre o Estreito de Ormuz chegou ao segundo mês sem acordo, e o mercado precificou o pior cenário possível. Cerca de 20 milhões de barris por dia seguem em risco de não chegar aos compradores globais, segundo estimativas de mercado divulgadas nesta sessão.
O conflito começou como uma crise geopolítica. Virou um choque de oferta histórico. O Banco Mundial estimou que os preços da energia devem subir 24% em 2026 — o maior salto desde a invasão da Ucrânia. O preço médio do Brent pode atingir US$ 115 por barril caso instalações críticas de petróleo e gás sofram mais danos. O preço médio já está 50% acima do início do ano.
O ponto de ruptura veio de um lugar inesperado. Os Emirados Árabes Unidos anunciaram nesta terça sua saída da OPEP e da OPEP+ a partir de 1º de maio — o primeiro membro histórico a deixar o grupo desde sua fundação. O país citou "estratégia energética de longo prazo" e maior autonomia de produção. Mas o ministro de Energia emiradense confirmou: a decisão não foi discutida com a Arábia Saudita. Um dos pilares do cartel deixou a mesa sem avisar o anfitrião.
Para os mercados, a saída dos Emirados tem dois efeitos opostos. No curto prazo, a expectativa de mais barris no mercado deveria pressionar os preços para baixo. Mas o contexto é o contrário: enquanto os Emirados prometem "aumentar a produção de forma gradual e comedida", o Estreito de Ormuz — por onde passava 35% do comércio global de petróleo antes da guerra — segue parcialmente bloqueado por ameaças iranianas. A oferta adicional dos Emirados não consegue chegar a quem precisa. O resultado é um mercado que tem mais produção potencial e menos petróleo disponível ao mesmo tempo.
O secretário de Estado Marco Rubio descartou a proposta iraniana de reabertura condicional do estreito, afirmando que Washington não aceitaria que Teerã controlasse o acesso a uma hidrovia internacional. A contraposição é clara: o Irã quer discutir o programa nuclear em separado, depois da reabertura. Os EUA querem o inverso. Esse impasse, segundo especialistas consultados pelo mercado, significa que mesmo um cessar-fogo imediato levaria meses para normalizar a logística marítima e os fluxos de produção. O prêmio de risco geopolítico não some com um comunicado — ele se dissolve lentamente, barril por barril.
IPCA e Copom
Enquanto o petróleo pressionava o mercado externo, o Brasil recebia sua própria notícia desconfortável pela manhã. O IPCA-15 de abril registrou alta de 0,89% — abaixo da estimativa de mercado de 0,98%, o que deveria ser uma boa notícia. Não foi. A composição do dado mostrou piora qualitativa que preocupou analistas mais do que o número cheio.
O problema está nos núcleos. A inflação de bens industriais saltou de 0,23% em março para 0,65% em abril. O índice de difusão — a proporção de itens com alta de preços — subiu de 63,2% para 67%. Isso significa que a inflação está mais disseminada, não mais concentrada. A gasolina foi o item de maior impacto individual, com alta de 6,23% e contribuição de 0,32 ponto percentual para o índice. A ligação com o Estreito de Ormuz não é metafórica: é aritmética.
O acumulado em 12 meses chegou a 4,37%, acima dos 3,9% do período anterior e acima da meta de 3% do Banco Central. Os economistas da EQI Investimentos projetam IPCA de 4,8% para 2026 — mais de 1,5 ponto acima da meta. O Copom se reúne nesta quarta-feira com uma equação difícil: cortar menos do que o mercado esperava ou manter o ritmo e arriscar alimentar a inflação.
A expectativa consolidada é de corte de 25 pontos-base na Selic, de 14,75% para 14,50%. Mas a surpresa qualitativa do IPCA-15 reduziu significativamente o otimismo de quem apostava em cortes de 50 pontos-base nas próximas reuniões, segundo o economista do PicPay, Matheus Pizzani. As taxas do Tesouro Direto subiram mesmo após o dado vir abaixo do esperado — o Prefixado 2029 foi de 13,58% para 13,70%. O mercado não acreditou no número cheio. Acreditou no núcleo.
O Ibovespa encerrou a quinta queda consecutiva, aos 188.618 pontos, com queda de 0,51%. O fluxo externo que sustentou o rali do início do ano começa a desacelerar, enquanto o institucional local migra estruturalmente para a renda fixa, atraído pela Selic ainda elevada. O índice sobe 17% no ano — mas a velocidade do avanço dependia de um capital externo que agora hesita diante da combinação de inflação, conflito e incerteza monetária.
Destaques Corporativos
No meio da pressão macro, dois resultados corporativos chamaram atenção pelo contraste com o ambiente. A Gerdau reportou lucro líquido ajustado de R$ 1 bilhão no primeiro trimestre de 2026, crescimento de 33,6% sobre o mesmo período do ano anterior. O EBITDA ajustado foi de R$ 2,96 bilhões — 25% acima do trimestre anterior e 6% acima das estimativas do Bradesco BBI. A surpresa veio do Brasil: após cinco trimestres consecutivos de retração operacional, os custos domésticos finalmente surpreenderam para baixo. A margem EBITDA no Brasil atingiu 9,2%, acima da própria projeção oficial da empresa de 8,9% para o ano inteiro.
A Embraer divulgou que sua carteira de pedidos atingiu US$ 32,1 bilhões no primeiro trimestre — o sexto recorde histórico consecutivo, com alta de 22% sobre o mesmo período do ano anterior. O segmento de aviação comercial foi o destaque: carteira de US$ 15 bilhões, avanço de 50% anual, impulsionado por 18 pedidos do modelo E195-E2 pela Finnair. O BTG Pactual destacou que o desempenho reforça "forte demanda, backlog robusto e melhora operacional, com impactos limitados do conflito no Oriente Médio." A Latam já contratou os primeiros 50 pilotos para operar aeronaves da fabricante brasileira.
A Cosan impulsionou as ações da holding em 3,6% com o anúncio do IPO da Compass, seu braço de gás e energia. A oferta pode movimentar até R$ 5,1 bilhões, tornando-se o primeiro IPO relevante no Brasil em quase cinco anos. A precificação está prevista para 7 de maio, com faixa indicativa entre R$ 28 e R$ 35 por ação. Para a Cosan, endividada e pressionada pelo mercado, a entrada de recursos via subsidiária representa uma janela de alívio financeiro. O mercado interpretou assim — e comprou a controladora, não a ofertante.
O cenário que se apresenta para os próximos dias tem dois eixos de definição. No externo, a resposta americana à contraproposta iraniana determina se o prêmio de risco do petróleo se sustenta acima de US$ 100 ou começa a deflacionar. No interno, a comunicação do Copom após a decisão de quarta-feira vai revelar o ritmo de cortes para o restante do ano. Se o banco central sinalizar cautela adicional diante da piora qualitativa do IPCA-15, as taxas longas do Tesouro podem abrir ainda mais — e o fluxo externo que sustenta o Ibovespa encontra menos razão para permanecer. O ponto de verificação é simples: o Prefixado 2029 abaixo de 13,6% indicaria alívio; acima de 14% indicaria que o mercado perdeu confiança no ciclo de cortes. A variável que pode inverter o quadro inteiramente é um acordo entre EUA e Irã — e até agora, os dois lados não concordaram nem sobre o que estão negociando.