PETR4 e ITUB4 sob fogo cruzado|Treasury de 2007 ou eleição?

· B3

Caso Vorcaro

O Ibovespa caiu 1,52% nesta terça e fechou aos 174.279 pontos, mas a leitura óbvia de que foi a guerra entre Estados Unidos e Irã não fecha a conta. O Brent recuou 0,68% no mesmo pregão, e ainda assim PETR4 perdeu 0,75% e ITUB4 desabou 2,12%. O movimento de aversão veio de fora, sim, mas o desconto adicional que apareceu nas blue chips brasileiras tem outro nome.

A pesquisa AtlasIntel divulgada com a Bloomberg mostrou Flávio Bolsonaro caindo seis pontos no segundo turno contra Lula em menos de um mês, de empate técnico para 41,8% contra 48,9%. O gatilho foi o áudio em que o senador cobrava Daniel Vorcaro, ex-dono do Master, pelo financiamento de R$ 134 milhões do filme sobre o pai. Antes mesmo do resultado, na sexta passada, estrangeiros já tinham sacado R$ 2,47 bilhões da B3 em um único pregão, e o saldo de maio chegou a R$ 9,7 bilhões de saída líquida. O fluxo que historicamente sustentava ITUB4, BBDC4 e VALE3 começou a recuar antes da pesquisa, e a confirmação numérica desta terça consolidou a rotação de posicionamento.

Como contraponto, o gestor Thalles Franco, da RPS Capital, sustenta que a pesquisa apenas confirmou o que o mercado já tinha precificado quando o áudio vazou, e que o movimento maior viria de fora. Essa leitura tem peso, mas ignora um dado específico. A pesquisa do Bank of America mostra que o trade eleitoral, historicamente concentrado no segundo trimestre, foi adiado para agosto neste ciclo, e 77% dos gestores ainda esperam que o risco geopolítico desacelere o afrouxamento do BC. Ou seja, o livro brasileiro estava montado para começar a virar daqui a três meses. O áudio antecipou esse relógio, e a venda de hoje é o ajuste de quem não pode esperar agosto para reduzir exposição.

Treasury 2007

A explicação eleitoral resolve por que a queda foi maior no Brasil do que nos pares, mas não explica por que o Ibovespa começou o pregão já em terreno negativo, antes da AtlasIntel sair. A resposta está no título de 30 anos do Tesouro americano tocando o maior nível desde 2007, com o mercado precificando a hipótese de que o Federal Reserve possa voltar a subir juros ainda neste ano.

O canal de transmissão é direto e mensurável. O EWZ, principal ETF de ações brasileiras em Nova York, recuou 2,29% e liderou as perdas entre fundos de emergentes, contra 1,75% do EZA da África do Sul, 1,18% do EWY coreano e 0,49% do EWW mexicano. A diferença entre EWZ e EWW desta terça é quatro vezes maior que a média do ano, e isso não se explica só pela geopolítica, que afeta os dois. O EWZ é mais líquido e por isso devolve mais quando a porta estreita, mas o spread sobre o EWW também mede o quanto o investidor global está cobrando do Brasil em prêmio adicional. Capital de fundos passivos globais reduziu Brasil contra México justamente quando os 30 anos americanos romperam um suporte estrutural.

Por dentro dessa transmissão, o gestor mais paciente diria que o Tesouro Direto brasileiro está com prefixados pagando mais de 14% pelo segundo dia consecutivo, e isso compensa parte do risco. Mas essa compensação só vale para quem fica em renda fixa local. Para quem precisa decidir entre VALE3 e o S&P 500, o Treasury de 2007 é um benchmark que desloca toda a curva de exigência de retorno. Galípolo reconheceu hoje no Senado que a Selic está restritiva, que a inflação ainda supera a meta e que o BC pode ter sido pouco conservador, com quatro descumprimentos de meta em seis anos. Essa admissão pública dificulta o pivot dovish que o mercado precisaria para reabrir a tese de carry trade no real, justamente quando os juros longos lá fora estão subindo.

B3 surpresa

Se o macro e a eleição explicam por que ITUB4 caiu 2,12% e VALE3 cedeu 0,99%, sobra B3SA3 derretendo 4,96% para R$ 15,89 e liderando as perdas individuais do índice. Aqui o gatilho é estritamente doméstico e específico de uma decisão de conselho.

O mercado tinha como cenário base que Luiz Masagão, atual vice-presidente de Produtos e Clientes, assumiria a presidência no lugar de Gilson Finkelsztain, que sai para o Santander Brasil. A escolha de Christian Egan, executivo recém-promovido na área de banco de investimento do Santander, com passagens por Credit Suisse, Itaú e Tivio, surpreendeu mesmo o Citi, que escreveu que a indicação aponta para preferência por um líder com perfil bancário em um momento em que a B3 enfrentará concorrência no seu negócio principal pela primeira vez. A previsibilidade de gestão é parte central da tese de B3SA3 porque a companhia opera infraestrutura, não produto, e qualquer dúvida sobre continuidade estratégica se traduz imediatamente em desconto de múltiplo. O fluxo vendedor de hoje saiu de fundos institucionais locais que tinham B3SA3 como posição core, e não de estrangeiros, porque o gatilho não cabe na narrativa macro.

Reunindo as três pontas, o quadro fica mais estreito do que parece. O ruído eleitoral antecipou um trade que viria em agosto, o Treasury de 2007 deslocou a curva de exigência sobre ativos brasileiros, e a B3 lembrou que mesmo o próximo nome listado pode ter tese própria fragilizada. A inclinação aqui é negativa no curto prazo, com o Ibovespa tecnicamente abaixo das médias de 9 e 21 períodos no diário e no semanal, mirando o suporte de 171.815 pontos. O lado positivo existe e tem nome. Se o petróleo voltar a recuar com avanço real das negociações EUA-Irã, o Treasury de 30 anos cede, e o EWZ tende a recuperar mais que os pares pela mesma assimetria que o derrubou hoje. O nível a observar amanhã é o suporte de 171.815 do Ibovespa e a marca de R$ 5,05 no dólar. Se os dois cederem juntos, o trade eleitoral terá começado de fato em maio, e não em agosto, e a tese baseada em paciência até o terceiro trimestre vira tese furada.

Link copied