PETR4 XP eleva projeção|US 2,5 bi presos no governo

· B3

O overhang que o mercado ainda não precificou

A Petrobras fechou 2025 com lucro de R$ 110 bilhões. PETR3 sobe mais de 64% em 2026. PETR4 avança quase 58%. O petróleo Brent voltou a se aproximar dos US$ 100 por barril. E a XP acaba de elevar suas projeções para a ação. Tudo parece favorável. Mas tem um número que muda a conversa. O BTG Pactual quantificou US$ 2,5 bilhões presos nas mãos do governo. É dinheiro que o governo deve à Petrobras — e ainda não pagou. São reembolsos do programa de subvenção aos combustíveis. Diesel subsidiado, gasolina subsidiada, conta que cresceu desde março. Segundo o BTG, a Petrobras deve encerrar junho com US$ 2,2 bilhões a receber só do diesel. Mais US$ 300 milhões ligados à gasolina. Problemas no processamento de notas fiscais pela ANP e pela Receita Federal atrasaram os pagamentos. O dinheiro está reconhecido. Está corrigido pela Selic. Mas ainda não chegou ao caixa da empresa. E sem esse caixa, a distribuição de dividendos enfrenta uma pressão temporária de capital de giro. Esse é o dilema central do momento.

Brent volátil, Estreito em zona cinzenta

O Estreito de Ormuz é o ponto de estrangulamento do petróleo global. Antes da guerra, cerca de 20% da produção mundial passava por ali. Desde o início do conflito entre EUA e Irã, esse corredor ficou bloqueado. O resultado foi uma escalada nos preços do petróleo. O querosene de aviação subiu 54,5% desde janeiro — até a Petrobras cortar 14,2% em junho. Na semana passada, Trump anunciou um cessar-fogo de 10 dias via Truth Social. O Irã disse que o Estreito está livre para passagem segura e estável. O mercado respondeu: o Brent despencou mais de 7% em um único pregão. PETR3 caiu 3,77% naquele dia. PETR4 recuou 2,86%. Mas o cessar-fogo não fechou o conflito. Netanyahu afirmou que a guerra contra o Irã ainda não terminou. O Irã avisou que voltará a agir se Israel continuar atacando o Líbano. Analistas projetam o Brent entre US$ 70 e US$ 100 no cenário intermediário. Acima de US$ 90, a Petrobras consegue entregar dividend yield entre 10% e 12%. Se o petróleo médio ficar entre US$ 110 e US$ 120, o yield pode chegar a 15%. O problema é que o cessar-fogo de 10 dias vence — e ninguém sabe o que vem depois. Enquanto o Estreito permanecer em zona cinzenta, o prêmio de risco se mantém. E esse prêmio é o que sustenta a projeção positiva da XP.

XP eleva projeção: a tese de dividendo ainda se sustenta?

A XP revisou para cima suas estimativas para a Petrobras. O argumento é sólido: produção crescendo, refino rodando bem, Brent elevado. No primeiro trimestre de 2026, a receita líquida ficou em R$ 123 bilhões. A produção total de óleo e gás cresceu 11% em 2025 na comparação anual. As refinarias operam com altas taxas de utilização. Com o petróleo perto de US$ 100, a geração de caixa é robusta. Mas tem um ponto que a XP e o BTG veem de ângulos diferentes. O fluxo de caixa livre caiu 22,9% no primeiro trimestre na comparação anual. Ficou em R$ 20,1 bilhões — abaixo do esperado. A causa: aceleração de investimentos e aumento de despesas. Em um momento em que o mercado queria conservadorismo, a Petrobras acelerou capex. O múltiplo preço sobre lucro da ação é de 5,6 vezes. A média das grandes petroleiras globais fica em 18,6 vezes. Isso é desconto histórico — ou é desconto justificado? Parte da resposta está nos US$ 2,5 bilhões ainda no caixa do governo. Se o pagamento acontecer antes de junho fechar, a pressão some. Se não acontecer, o segundo trimestre começa com capital de giro comprimido. O BTG acredita que o crescimento do Ebitda compensa o atraso. Mas destaca: ainda não há clareza sobre quando o governo paga. E essa incerteza é exatamente o que separa os dois grupos de investidores hoje.

A ação que impulsiona e trava o Ibovespa ao mesmo tempo

PETR3 e PETR4 juntas representam 12% da carteira teórica do Ibovespa. Nenhuma outra empresa tem esse peso combinado no índice. O investidor estrangeiro entrou com R$ 69 bilhões na B3 em 2026. Boa parte desse fluxo veio via fundos de mercados emergentes — o EWZ, por exemplo. Quando o dinheiro entra no índice, vai primeiro para as maiores posições. Petrobras é a maior posição. Isso explica parte do rali de 57% a 64% nos papéis da estatal. Mas cria também um paradoxo que o mercado vive toda semana. Quando o noticiário geopolítico melhora, o petróleo cai. Com petróleo em queda, PETR3 e PETR4 caem junto. E o Ibovespa perde o maior suporte. Foi exatamente isso que impediu o índice de bater 200 mil pontos. O Ibovespa chegou a 199 mil pontos — e travou. As ações da Petrobras caíram naquele pregão. O índice recuou sem romper o nível histórico. A pergunta relevante é direta. O investidor está posicionado em Petrobras apostando em petróleo alto? Ou está posicionado apostando em dividendos que dependem de caixa ainda no governo? São teses diferentes. Com prazos diferentes. E riscos diferentes. O desfecho do Estreito de Ormuz responde uma. O calendário de pagamentos do governo responde a outra. Os dois pontos de verificação continuam abertos — e os US$ 2,5 bilhões seguem esperando.

Link copied