Petrobras Brent a US 111|Projeção de US 70 que ninguém esperava
O dia em que o petróleo subiu e a bolsa caiu
O barril de petróleo tipo Brent encerrou esta terça-feira, 28 de abril, acima de US$ 111. Alta de mais de 50% só em 2026. E mesmo assim, o Ibovespa fechou em queda pelo quinto dia consecutivo, aos 188 mil pontos. Esse foi o pano de fundo de uma sessão que parecia contradizer a lógica.
A guerra entre Estados Unidos e Israel contra o Irã não dá sinais de recuo. O Estreito de Ormuz, por onde passa 20% do petróleo global, permanece fechado. E a saída dos Emirados Árabes Unidos da OPEP, anunciada para 1° de maio, retirou mais um freio do cartel que já encolheu. O ambiente era de escassez real, não especulativa.
No mercado doméstico, o IPCA-15 de abril veio em 0,89%, abaixo do esperado, mas o alívio durou pouco. A "qualidade" da inflação preocupou analistas, e o mercado entrou em compasso de espera pela Super Quarta: Copom e Fed decidem juros ao mesmo tempo. "Estamos numa sazonalidade um pouco ruim", disse Felipe Cima, da Manchester Investimentos. "Parece que alguns investidores estão colocando lucros no bolso para ver até onde os juros vão."
A Vale registrou lucro de US$ 1,9 bilhão no primeiro trimestre, alta de 36% na comparação anual. Mas o resultado ficou 24,6% abaixo do consenso de mercado — e os custos da mineradora subiram 12%, pressionados justamente pelo petróleo mais caro e pelo real valorizado. O mesmo petróleo que faz a ação da Petrobras subir 55% em 2026 está comendo a margem da Vale por baixo.
Foi nesse cenário que a presidente da Petrobras, Magda Chambriard, se posicionou publicamente sobre o futuro do petróleo. E o que ela disse mudou o tom de todo o dia.
A CEO que não acredita no próprio preço
Com o barril a US$ 111, a CEO da maior petrolífera da América Latina afirmou que espera o petróleo fechar 2026 perto de US$ 70. Não foi uma previsão de curto prazo. Foi uma declaração de estratégia.
"A gente se prepara para o preço baixo. Nossos projetos têm que ser resilientes a preço baixo. Temos que ser capazes de lidar com isso", disse Chambriard em evento em Duque de Caxias, Rio de Janeiro.
A diferença entre o preço atual e a projeção da CEO é de 36%. Em valor absoluto, US$ 41 por barril. Para uma empresa que produz mais de 2 milhões de barris por dia, esse gap equivale a dezenas de bilhões de dólares anuais de receita — que Chambriard está, na prática, dizendo que podem desaparecer.
O raciocínio por trás da fala é conhecido entre economistas do setor: o petróleo de guerra é volátil e reverte rápido. Em 2022, quando a invasão russa à Ucrânia empurrou o Brent acima de US$ 120, analistas também viram preços para sempre elevados. Dois anos depois, o barril voltou a US$ 70. A Petrobras já operou e foi lucrativa naquele patamar. É esse horizonte que Chambriard sinaliza como o piso de planejamento.
Mas há um elemento diferente desta vez. O conflito EUA-Irã não é uma sanção econômica como as aplicadas à Rússia. É um bloqueio físico. O Estreito de Ormuz fechado não se reabre por decreto de paz diplomático. Ele reabre quando navios militares se retiram. E os negociadores ainda travam na questão nuclear iraniana — o verdadeiro nó, que nenhuma das partes quer ceder.
Enquanto esse impasse persiste, a Petrobras colhe margens históricas. E ao mesmo tempo planeja reajustar a gasolina nas refinarias caso o Congresso corte o PIS/Cofins sobre combustíveis — o mesmo mecanismo usado em março com o diesel, quando o governo reduziu R$ 0,32 em impostos e a Petrobras elevou R$ 0,38 nas refinarias. O consumidor ficou com os centavos da diferença. A estatal ficou com a margem ampliada.
O que muda se o petróleo cair de volta a US$ 70
Se a projeção de Chambriard estiver correta, o cenário para o mercado brasileiro muda de forma significativa.
A Petrobras vale hoje mais de R$ 500 bilhões em valor de mercado. Parte substancial desse valuation embute o petróleo entre US$ 90 e US$ 110. Uma queda a US$ 70 comprimiria o lucro estimado de 2027, pressionaria dividendos e reabriria o debate sobre a paridade de importação — que a CEO mencionou indiretamente ao dizer que "quando você reduz o preço de PIS/Cofins, tem espaço para produtores e importadores aumentarem o preço."
Por outro lado, se o petróleo cair, a Vale respira. Os custos de C1 do minério de ferro, que subiram a US$ 23,6 por tonelada neste trimestre, voltam a comprimir. O real pode se enfraquecer — tornando as exportações de minério mais competitivas em dólares. E o Ibovespa, que tem Petrobras e Vale como dois de seus maiores pesos, pode redistribuir a liderança de setores.
O que mantém o petróleo elevado é exatamente o que mantém o Estreito de Ormuz fechado: a resistência iraniana de incluir o programa nuclear nas negociações. Se houver acordo parcial que reabra a rota marítima sem resolver o tema nuclear, o barril pode cair abruptamente — e o mercado não está precificando essa possibilidade como central. O Iran sinalizou nesta terça um estado de "colapso interno" e propôs reabrir o estreito condicionado à suspensão do bloqueio naval americano. As negociações continuam, mas travam.
A verificação dessa tese tem data marcada: a decisão do Copom desta quarta-feira e qualquer comunicado sobre as negociações EUA-Irã nas próximas 72 horas. Se o Copom sinalizar cortes mais longos à frente e o Estreito permanecer fechado, o petróleo alto pode durar mais do que Chambriard prevê. Se o bloqueio naval ceder, mesmo que parcialmente, o Brent pode recuar abaixo de US$ 90 em dias.
Chambriard projetou US$ 70. O mercado precifica acima de US$ 100. Um dos dois estará errado — e a bolsa brasileira sente o resultado antes de qualquer relatório trimestral.