Queda do Petróleo|O Rali das Nucleares

2026-04-17 · B3

Setor de Energia

Na última sexta-feira, o Dow Jones registrou uma alta superior a 1.000 pontos, em um movimento oposto ao do mercado de petróleo. O barril do tipo Brent caiu para patamares inferiores a 90 dólares — uma desvalorização de 16% em relação ao seu pico em apenas dois dias — após o Irã declarar a reabertura total do Estreito de Ormuz para o transporte comercial. O impacto no setor de energia foi imediato: as ações da ExxonMobil caíram fortemente e a Chevron pressionou negativamente o rali do Dow Jones, enquanto a Valero Energy recuou 8,6%. A narrativa principal parecia clara: com a redução dos riscos geopolíticos e o retorno da oferta, os ativos de energia tradicionais pagariam o preço.

Contudo, um movimento atípico ocorria em outro segmento do mercado. As ações da NuScale Power saltaram mais de 40% na semana, a Oklo subiu 6% e a Nano Nuclear Energy avançou 5%. No mesmo dia em que o petróleo desabava com as notícias de trégua, o setor nuclear registrava ralis consecutivos. O otimismo foi impulsionado pelo anúncio de um plano de energia nuclear pela Casa Branca e pela assinatura de novos acordos de fornecimento de energia da NiSource com a Alphabet e a Amazon. Dois cenários distintos operavam simultaneamente: a redução da tensão no petróleo derrubou as commodities, mas o comércio de energia nuclear seguiu em forte alta. Embora pareçam movimentos isolados, eles estão profundamente conectados.

Lacuna no Setor

O conflito envolvendo o Irã perdurou o suficiente para gerar impactos significativos. Durante as semanas em que o Estreito esteve sob ameaça, o petróleo superou a marca de 100 dólares e a gasolina nos Estados Unidos atingiu a média nacional de 4,17 dólares por galão. Uma autoridade sênior do Federal Reserve alertou que o conflito poderia causar um choque de preços duradouro. A crise revelou um fator que o mercado já compreendia intelectualmente, mas ainda não havia precificado totalmente: a infraestrutura energética que alimenta os centros de dados de Inteligência Artificial dos Estados Unidos depende de um dos pontos de estrangulamento mais politicamente instáveis do mundo.

Esta é a conexão oculta. A queda do petróleo não tornou a energia nuclear irrelevante; pelo contrário, a crise acentuou sua urgência. Centros de dados de IA exigem eletricidade em uma escala que as redes atuais não conseguem suprir com confiabilidade. A crise cristalizou essa dependência. Alphabet e Amazon não estão firmando parcerias com a NiSource devido à queda momentânea do petróleo na sexta-feira, mas sim porque as últimas semanas demonstraram o impacto de um choque de oferta nos custos operacionais e na previsibilidade do planejamento. Recentemente, a Microsoft inaugurou o que descreveu como o centro de dados de IA mais potente do mundo, enquanto expandia um acordo de dados com a Stellantis. São compromissos de infraestrutura com horizontes de décadas, que não dependem do preço atual do Brent.

O Bank of America classificou o atual momento como um "renascimento nuclear". A Oklo prevê que seu primeiro reator atinja uma reação autossustentável até o dia 4 de julho. Além da NuScale e da Oklo, o plano da Casa Branca impulsionou nomes como Cameco e Centrus Energy. Essa valorização não ocorreu pela paz, mas porque o conflito tornou a necessidade visível. O choque energético também acelerou mudanças paralelas: na China, as ações de energia renovável e veículos elétricos subiram com expectativas de exportação, enquanto na Europa, a interrupção impulsionou o planejamento nuclear em mercados africanos e asiáticos. A reabertura de Ormuz resolveu a crise imediata, mas não o problema estrutural.

Riscos e Futuro

O peso das evidências indica que a expansão da energia nuclear e das fontes limpas deve continuar, independentemente de onde o preço do petróleo se estabilize. A demanda energética impulsionada pela IA é estrutural e não será revertida por uma queda do Brent para 88 dólares. Os acordos da Alphabet, a expansão da NiSource com a Amazon e as instalações da Microsoft são compromissos de capital plurianuais que não foram motivados por um pico temporário no petróleo, nem serão desfeitos por uma queda pontual.

Apesar disso, o salto de 40% da NuScale em uma única semana traz riscos reais. As avaliações de mercado avançaram muito além dos marcos operacionais alcançados. Em fevereiro, a NuScale apresentou resultados significativamente abaixo das expectativas, com um impacto contábil de 507 milhões de dólares decorrente de um pagamento de marco esperado, o que derrubou as ações em 30% antes da recuperação atual. A empresa divulga novos resultados em 7 de maio, e o próximo teste rigoroso será o marco operacional da Oklo em julho. Se qualquer um desses eventos frustrar o mercado, as ações podem devolver os ganhos rapidamente.

O indicador fundamental a ser monitorado é a próxima divulgação trimestral da NiSource sobre os compromissos de capacidade de energia para centros de dados. Se Alphabet e Amazon acelerarem a contratação de gigawatts, a tese de investimento se mantém sólida. Se houver desaceleração nesses contratos, o rali nuclear terá sido apenas um movimento especulativo baseado em sentimento, não uma mudança estrutural. Por fim, resta a tensão geopolítica: o Estreito está aberto hoje, mas já foi fechado anteriormente. Embora o Irã afirme que a reabertura é permanente, o mercado e autoridades do Fed mantêm a cautela. Caso o fluxo seja interrompido novamente, o argumento sobre a fragilidade da rede elétrica ganhará ainda mais força, favorecendo o setor nuclear com maior convicção institucional.