Raízen RAIZ4 dívida de R65bi vira ação a R0,25|controle dos credores?

· B3

A empresa que queimou R$3,3 bilhões em um trimestre

A Raízen estreou na bolsa em 2021 avaliada em R$76 bilhões. Nesta semana, propôs converter parte de sua dívida em ações a R$0,25 por papel. Esse número não é arbitrário. É o preço que a própria empresa estabeleceu como novo valor de referência do RAIZ4. E é nesse detalhe que começa a questão central deste vídeo. Para entender por que a empresa chegou a esse ponto, é preciso olhar para os números do primeiro trimestre de 2026. Naquele período, a Raízen registrou uma queima de caixa de R$3,3 bilhões. Dentro desse valor, apenas o pagamento de juros das dívidas somou quase R$2,9 bilhões. Isso significa que a empresa gastou quase toda a sua geração operacional apenas para pagar o custo do dinheiro que devia. A dívida líquida saltou de R$38,6 bilhões para R$55,3 bilhões em um ano. A alavancagem medida pela relação dívida líquida sobre Ebitda avançou de 3 vezes para 5,3 vezes. Para uma empresa do setor de energia e distribuição de combustíveis, esse nível de endividamento deixou as contas impossíveis de fechar — mesmo com venda de ativos. Até fevereiro de 2026, a Raízen havia levantado cerca de US$5 bilhões com desinvestimentos, incluindo usinas e operações não estratégicas. Ainda assim, a situação continuou se deteriorando. No terceiro trimestre da safra 2025/2026, o prejuízo registrado foi de R$15,65 bilhões. O movimento levou à exclusão da empresa do Ibovespa e de outros índices da B3, o que retirou da base de acionistas uma parcela relevante de fundos indexados. A tese de crescimento que sustentou o IPO — etanol de segunda geração e transição energética — perdeu força ao longo de 2023 e 2024 com a virada do mercado global em relação a investimentos ESG e com o avanço do etanol de milho como substituto mais barato. A empresa protocolou o pedido de recuperação extrajudicial em 11 de março de 2026. Esse modelo permite renegociar dívidas diretamente com os credores sem que o processo fique totalmente sob condução judicial. O prazo de proteção dura 90 dias. O objetivo declarado da Raízen era fechar o acordo e levar o plano para homologação judicial no início de junho. Na noite de 27 de maio de 2026, a empresa finalmente divulgou os termos preliminares do plano. O que o mercado recebeu no dia seguinte foi uma queda de 19% nas ações em uma única sessão. Esse número é o primeiro verificador desta análise. Ele mostra que o mercado não estava precificando o conteúdo real do plano — e que a surpresa tinha direção específica. A pergunta que fica ao final deste capítulo é: o que exatamente esse plano revela sobre quem será dono da Raízen daqui para frente?

Três caminhos, uma pergunta: qual credor aceita o quê?

O plano apresentado pela Raízen divide os R$65,4 bilhões em dívidas renegociáveis em três opções distintas. A opção principal, chamada de opção A, combina dois movimentos simultâneos. Primeiro, 45% da dívida é convertida em ações. A conversão acontece a R$0,25 por papel, com credores recebendo ações units. Segundo, os 55% restantes continuam como dívida, mas são reestruturados com novos prazos e custos diferentes conforme o tipo de operação da Raízen. A divisão de combustíveis pagaria CDI mais 2,75% ao ano, ou 8,5% em dólar, com vencimentos em 2032 e 2034. A divisão de energia pagaria CDI mais 1,25%, ou 7% em dólar, com vencimentos em 2033 e 2035. Essa diferença de spread não é apenas técnica. Ela reflete o perfil de risco distinto dos dois negócios e, potencialmente, os incentivos tributários ligados à área de bioenergia. A opção B é a mais radical. Nela, o credor aceita um desconto de 80% sobre o valor da dívida em troca de um único pagamento — mas com vencimento apenas em 2047. Na prática, quem escolhe a opção B está aceitando receber 20 centavos por cada real que emprestou, e ainda esperar 21 anos para isso. Essa opção faz sentido somente para um tipo específico de credor: aquele que já não acredita na recuperação da empresa e prefere uma saída limpa com perda reconhecida agora. A opção C é voltada a pequenos credores. Ela prevê pagamento imediato em dinheiro, mas limitado ao menor valor entre 75% do crédito ou R$9.750. O teto global para esta categoria é de R$150 milhões. Aqui está o ponto que a maioria das análises passou por cima. A proposta declara que a conversão acontece ao mesmo preço pago pela Shell na injeção de capital — R$0,25 por ação. Isso foi apresentado como garantia de tratamento igualitário entre credores e acionistas de controle. Mas essa igualdade de preço pressupõe uma premissa não declarada: que o valor de R$0,25 representa a avaliação justa da empresa no momento da conversão. Se essa premissa for falsa — ou seja, se o valor real da empresa for inferior a esse preço — então tanto os credores que aceitam a conversão quanto a Shell estão entrando em um ativo com valor menor do que o preço pago. Os credores que entram como acionistas a R$0,25 tornam-se sócios de uma empresa que ainda precisa aprovar o plano com mais da metade dos credores, fechar um acordo com a Receita Federal sobre passivos tributários, e executar a cisão operacional em duas empresas distintas. Cada uma dessas condições é uma porta que pode travar a reestruturação antes da homologação judicial. A questão residual deste capítulo é: se os credores passarem a deter quase 80% da companhia após a conversão, o que sobra para os acionistas que compraram RAIZ4 acima de R$0,25?

Shell e Ometto a R$0,25: quem controla a Raízen pós-reestruturação?

A Shell se comprometeu a investir R$3,5 bilhões na Raízen. O family office de Rubens Ometto, a Aguassanta, pode aportar mais R$500 milhões. Ambos entram a R$0,25 por ação. Esse capital é a âncora de todo o plano. Sem ele, a conversão de dívida em equity não tem o piso de precificação necessário para funcionar. Mas há uma assimetria importante entre os dois aportes. O de R$3,5 bilhões da Shell é firme. O de R$500 milhões de Ometto usa o tempo verbal condicional em todos os artigos consultados: pode aportar, prevê, depende de. Segundo apuração do Broadcast, parte dos credores já trabalha com a possibilidade de Ometto ficar fora do aumento de capital. A avaliação no mercado é que, diante do tamanho da crise, os R$500 milhões teriam impacto limitado no reequilíbrio das contas de qualquer forma. Somados, Shell e Ometto injetariam R$4 bilhões. Os credores pediam R$8 bilhões de capitalização. Essa diferença de R$4 bilhões é a folga que o plano não tem. Ometto, por sua vez, afirmou publicamente ao InvestNews que seu aporte segue mantido, independentemente de continuar ou não à frente do conselho. Mas essa declaração não eliminou a dúvida — apenas a deixou explícita. Os bancos pressionam pela saída de Ometto da presidência do conselho de administração. A formação de um novo conselho está prevista para o primeiro trimestre de 2027, junto com a criação de um cargo de diretor de reestruturação. Aqui está a premissa que o plano deixa implícita, e que determina o desfecho para os acionistas atuais. Se os credores aceitarem a opção A e converterem 45% da dívida em equity, eles passam a deter aproximadamente 80% da companhia. Nesse cenário, Shell e Ometto mantêm participação, mas o controle efetivo migra para os credores. A premissa implícita que os investidores em RAIZ4 precisam examinar é a seguinte: eles compraram ações de uma empresa gerida por Cosan e Shell. Se o plano for aprovado, estarão em minoria em uma empresa controlada por bondholders — que têm objetivos e horizontes de tempo completamente diferentes dos acionistas originais. O credor que virou acionista quer, primariamente, recuperar capital. O acionista de longo prazo quer crescimento de valor. Esses dois objetivos produzem decisões de governança distintas sobre dividendos, reinvestimento, venda de ativos adicionais e ritmo de desalavancagem. A separação operacional da Raízen em duas empresas — uma de energia e outra de combustíveis — só amplifica essa tensão. Pares como Vibra e Ultrapar operam no mesmo mercado de distribuição, e uma Raízen Combustíveis desalavancada poderia competir de forma diferente daqui a 3 anos. O verificador que os holders de RAIZ4 devem acompanhar é o percentual de credores que adere à opção A no prazo de negociação. Se a adesão à opção A ficar abaixo de 50%, o plano não tem a maioria necessária e a empresa entra em cenário de recuperação judicial — que todas as partes definiram como o pior desfecho. A queda de 19% na abertura de 29 de maio mostra que o mercado ajustou rapidamente para esse risco. O RAIZ4 entrou em reestruturação como empresa de energia e saiu do mesmo dia como uma penny stock de R$0,25. A pergunta que permanece é se o papel ainda embute alguma opção de valor — ou se reflete apenas a posição residual de quem ficou para trás na fila dos credores.

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