Raízen RAIZ4 vende usina por R760 milhões|Credores ficarão com 80% da empresa

· B3

A venda que parece boa notícia

A Raízen vendeu nesta segunda-feira a Usina Caarapó, no Mato Grosso do Sul, para a Adecoagro por 760 milhões de reais. À primeira vista, é dinheiro novo entrando no caixa de uma empresa que só perde ativos desde que pediu recuperação extrajudicial. Mas essa venda não resolve o problema que fez a Raízen chegar até aqui: uma dívida líquida de 58,2 bilhões de reais e uma alavancagem de 5,2 vezes o Ebitda. O ponto que passa batido é outro: essa venda é só um capítulo de um plano que já decidiu que 80% do controle da empresa vai para os credores.

O próprio Citi resume essa contradição em uma única nota. Os analistas Gabriel Barra e Pedro Gama escreveram que consideram positiva a entrada de recurso em caixa com a venda, porque a Raízen está reduzindo a complexidade do negócio. Na mesma nota, afirmam que a operação é insuficiente para ajudar a empresa a reduzir sua alavancagem e ajustar a estrutura de capital. Um banco dizendo, ao mesmo tempo, que a notícia é boa e que ela não muda nada de essencial é o primeiro sinal de que o mercado ainda não decidiu como ler esse movimento.

Para entender por que o Citi hesita, os números do último resultado ajudam. A Raízen fechou o quarto trimestre da safra com prejuízo líquido de 7,3 bilhões de reais, contra 2,5 bilhões um ano antes, puxado por uma perda de 22,5 bilhões de reais em impairments. A ação preferencial, a RAIZ4, negocia abaixo de um real desde dezembro, o que classifica a companhia como penny stock pelas regras da própria B3. Essa venda de usina entra nesse contexto: não é o início de uma crise, é mais um movimento dentro de uma crise que já dura meses.

Quem vai ser dono da Raízen amanhã

Isso muda a pergunta que realmente importa aqui. Não é se a venda de ativos vai salvar a Raízen — o plano de recuperação já assumiu que 45% da dívida vira ações e o restante vira novos títulos. Com essa conversão, os credores passam a deter 80% da estrutura da nova companhia. A pergunta que decide o valor de quem segura RAIZ4 hoje é outra: qual credor vai controlar essa fatia de 80%, e em que condições ele vai negociar com o acionista pessoa física que ainda está lá.

E aqui está o conflito real, documentado nos próprios bastidores da negociação. A dívida da Raízen está pulverizada entre 19 bancos, milhares de detentores de CRAs e debêntures, e fundos internacionais donos de bonds. Por classe, os bondholders concentram 41,7% dos créditos, bancos e gestoras de ativos somam 39,7%, e investidores de CRAs e debêntures ficam com 18,6%. Gestoras que já sondam essa disputa preferem fechar acordo com bancos e bondholders, porque juntos garantem pouco mais de 80% dos créditos sem precisar negociar com o investidor pessoa física.

Isso já está precificado nos próprios títulos: os papéis de dívida da Raízen negociam próximos a 50% do valor de face no mercado secundário. Fontes ouvidas no processo afirmam que as gestoras interessadas devem usar exatamente esse valor de mercado, e não o preço original dos papéis, como base para qualquer proposta ao investidor pessoa física. Ou seja, quem hoje segura dívida ou ação da Raízen está sendo avaliado por credores profissionais a menos da metade do que valia — e é esse desconto, não o preço da usina vendida hoje, que vai definir o valor final de quem ficar até o fim do processo.

O relógio que já começou a correr

O calendário que decide esse desfecho já está marcado. A homologação oficial do plano de recuperação extrajudicial da Raízen está prevista para agosto, quando os credores vão definir as opções concretas de pagamento. A partir daí, as gestoras interessadas em assumir o controle têm até março de 2027, quando a emissão dos novos títulos e ações deve acontecer, para fechar negócio com bancos e bondholders. É esse prazo, e não o valor da usina vendida hoje, que funciona como o verdadeiro relógio da tese.

Há ainda uma segunda contagem regressiva rodando em paralelo. A B3 prorrogou até 31 de março de 2027 o prazo para a Raízen apresentar um cronograma que tire a ação preferencial da condição de penny stock, já que ela negocia abaixo de um real desde dezembro. É a mesma janela de tempo da conversão de dívida em ações — o que significa que o reenquadramento da RAIZ4 na bolsa e a redefinição de quem controla a empresa devem se resolver praticamente ao mesmo tempo, não em momentos separados.

Isso deixa dois caminhos abertos, não um veredito fechado. Se a homologação de agosto travar em uma disputa prolongada entre bondholders, bancos e detentores de CRAs sem consenso sobre a fatia do investidor pessoa física, o cenário se torna um risco de nova pressão sobre o papel, agora sem o alívio de caixa das vendas de ativos para sustentar o preço. Se, por outro lado, o acordo de agosto sair com uma diluição menor do que os 80% hoje previstos para os credores, a tese vira uma oportunidade real de reprecificação da ação abaixo de um real. O ponto a observar antes de qualquer decisão não é mais o valor de usinas vendidas — é o resultado da homologação de agosto e o percentual final de diluição que ela travar para o acionista atual.

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