RAIZ4 -16% com Conversão a R 0,25|A Shell Viu o Piso Que o Mercado Recusou?

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O Número Que Derrubou RAIZ4

R$ 0,25. Esse é o preço que a Shell aceitou pagar para colocar R$ 3,5 bilhões na Raízen. É também o preço que o plano de reestruturação extrajudicial de RAIZ4 pede aos credores para converter 45% da dívida em ações. E foi esse número que derrubou os papéis 16,66% na quinta-feira, com RAIZ4 chegando a R$ 0,35 — e tocando R$ 0,33 na mínima intradiária.

O Ibovespa encerrou o pregão com queda de 0,39%, a 175.063 pontos, pressionado por dados do mercado de trabalho e cautela geopolítica no Oriente Médio. O Caged registrou criação de 85.888 vagas formais em abril, o menor resultado do ano. A PNAD Contínua trouxe desemprego de 5,8% — alta de 0,4 ponto percentual frente ao trimestre anterior — enquanto a renda média chegou a R$ 3.732, em patamar recorde. Wall Street ignorou esse cenário e fechou em alta, com S&P 500 a 0,58% e Nasdaq a 0,91%, em novos recordes históricos.

No setor de petróleo, PETR3 recuou 1,16% e PETR4 caiu 0,72%, mesmo após a Petrobras anunciar reajuste de R$ 0,48 por litro na gasolina. O mercado leu o anúncio com ceticismo: o governo publicou simultaneamente uma subvenção de R$ 0,44 por litro via edição extra do Diário Oficial, reduzindo o impacto líquido para as distribuidoras a R$ 0,04 por litro. A defasagem nas refinarias era de 55% — equivalente a R$ 1,37 por litro. Esse abismo não fechou. Apenas foi diferido.

A queda de RAIZ4 foi a maior da sessão, mas não foi o reflexo de uma notícia negativa. Foi a expressão de um plano de reestruturação que revelou o verdadeiro estado do balanço da empresa — e o preço que qualquer novo entrante exige para embarcar nesse risco.

Por Que R$ 0,25 É o Único Número Que Fecha a Equação

No primeiro trimestre de 2026, a Raízen queimou R$ 3,3 bilhões em caixa. Desse total, quase R$ 2,9 bilhões foram só com pagamento de juros. A empresa tem R$ 75,3 bilhões em dívidas totais, com R$ 65,4 bilhões dentro do perímetro de renegociação. Com esse nível de custo financeiro, a geração operacional de uma das maiores distribuidoras de combustíveis e produtoras de etanol do país deixou de cobrir as obrigações.

A Shell conhece cada ativo da Raízen desde o início da joint venture. Ela tem acesso total aos fluxos, contratos, balanços e projeções operacionais. Quando a Shell aceitou entrar a R$ 0,25 por ação, não foi o resultado de uma negociação apressada. Foi o valor que uma contraparte com informação privilegiada considerou compatível com o risco que está assumindo.

A Aguassanta — o family office de Rubens Ometto, fundador da Cosan — pode aportar mais R$ 500 milhões, também a R$ 0,25. Os dois controladores estratégicos convergem no mesmo patamar. Isso cria uma âncora. Para os credores que escolherem a opção A — converter 45% da dívida em ações a R$ 0,25 — o preço de entrada é o mesmo dos controladores. A lógica implícita é que ninguém entra por menos do que os donos estão pagando.

Os 55% restantes da dívida reestruturada seriam divididos entre duas novas entidades: Raízen Combustíveis e Raízen Energia, com prazos entre 2032 e 2035 e juros de CDI mais 1,25% a 2,75%. Para credores que não acreditam na recuperação, a opção B oferece desconto de 80% do valor com pagamento em parcela única em 2047. Para pequenos credores, a opção C permite saída imediata com 75% do crédito ou até R$ 9.750, com teto global de R$ 150 milhões.

O problema apontado por Gustavo Trotta, da Valor Investimentos, é direto: a conversão a R$ 0,25 implica diluição muito pesada para os acionistas atuais. Alexandre Pletes, da Faz Capital, confirma: o mercado esperava conversão, mas esperava um preço mais próximo do mercado. A queda de 40% em relação ao fechamento da quarta-feira indica que o deságio foi percebido como confisco, não como ajuste.

O que ainda está em aberto é se mais da metade dos credores vai votar a favor. Sem essa aprovação, o plano não avança — e a recuperação judicial se torna o cenário seguinte.

O Que a Votação dos Credores Vai Revelar

A tensão que sobrou do dia não é o quanto RAIZ4 vai recuperar. É se os credores vão dizer sim a R$ 0,25.

Julio Moretti, CEO da Neot, sinalizou um risco específico: a proposta de dividir a Raízen entre Raízen Combustíveis e Raízen Energia pode ser lida como uma separação à vista entre Cosan e Shell. Se os credores interpretarem a cisão como um sinal de que os dois sócios estratégicos estão saindo em direções diferentes, a percepção de risco da opção A — a que converte dívida em ações — aumenta. Quem vai querer virar acionista de uma empresa cujos controladores estão se separando?

Esse é o ponto que o R$ 0,25 ainda não resolve. O preço âncora dos controladores funciona como sinalização de comprometimento somente enquanto a narrativa de reunificação operacional se sustenta. Se a cisão for lida como ruptura, a lógica inverte: a Shell saiu pelo lado da energia, a Cosan saiu pelo lado dos combustíveis, e os credores convertidos ficam acionistas de duas empresas menores sem os benefícios da escala original.

Historicamente, reestruturações extrajudiciais no Brasil com conversão de dívida em equity abaixo do preço de mercado enfrentam resistência dos credores institucionais com posições grandes — que preferem negociar individualmente do que aceitar o preço coletivo. O teto de R$ 150 milhões na opção C e a opção B com desconto de 80% existem justamente para oferecer saída a quem não quer a opção A. Mas se muitos credores escolherem B ou C, o nível de conversão cai — e a estrutura de capital da empresa pós-reestruturação fica mais pesada do que o plano prevê.

O benchmark de monitoramento para os próximos dias é a sinalização dos credores institucionais — fundos de crédito, debêntures e credores externos com exposição ao RAIZ4. Se posições relevantes migrarem para a opção B, o mercado lerá isso como rejeição implícita antes da votação formal. RAIZ4 voltaria a pressionar.

O cenário alternativo é a Shell usar sua posição como credor e acionista para pressionar o bloco de credores menores. Nesse caso, o plano pode ser aprovado com uma maioria estreita — e o preço de R$ 0,25 passaria de âncora para piso histórico de reentrada. O que não muda em nenhum dos dois cenários é que o Ibovespa acumula queda de 6,54% em maio, com o real sob vigilância e os dois maiores setores de energia do Brasil — renovável e fóssil — mostrando que o custo de capital elevado não escolhe tecnologia. Ele escolhe quem sobrevive.

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