Rejeição de Messias ao STF|132 anos sem precedente no poder de Lula
O dia em que o Ibovespa caiu 2% e o Senado escreveu história
Em 29 de abril de 2026, o mercado brasileiro já estava em modo de defesa antes mesmo do meio-dia. O Ibovespa acumulava a sexta queda consecutiva, os juros futuros avançavam por toda a curva e o dólar voltava a R$ 5,00. Era uma "Superquarta" pesada: o Federal Reserve nos Estados Unidos manteve os juros no intervalo entre 3,50% e 3,75%, o Copom cortou a Selic para 14,50% ao ano com cautela acima do esperado, e os balanços de Vale, WEG e Santander decepcionaram um mercado que já estava com os nervos à flor da pele.
O petróleo Brent girava em torno de US$ 118 por barril, impulsionado pela tensão persistente no Oriente Médio. A Vale despencou mais de 5% depois que seus custos operacionais superaram a alta do lucro no primeiro trimestre. A WEG caiu 6,75%, seu pior dia em anos, com receita doméstica em queda de 6,1%. O Santander Brasil entregou um ROE abaixo de 16%, longe do que analistas esperavam.
E então, às 17h30, o Senado votou.
42 senadores votaram contra a indicação de Jorge Messias ao Supremo Tribunal Federal. Apenas 34 votaram a favor. Para ser aprovado, o advogado-geral da União precisava de 41 votos — a maioria absoluta dos 81 senadores. Não chegou nem perto.
132 anos de silêncio quebrados em 77 minutos
A última vez que um presidente da República viu sua indicação ao STF ser barrada pelo Senado foi em 1894. Naquele ano, Floriano Peixoto estava no poder. Passaram-se 132 anos, dezenas de indicações, governos de todas as matizes políticas — e nenhum nome havia sido rejeitado. Até esta quarta-feira.
O que torna o episódio desconcertante não é apenas o placar. É o timing. Horas antes da votação em plenário, a Comissão de Constituição e Justiça do Senado havia aprovado Messias com 16 votos a 11. Esse resultado normalmente sinaliza apoio suficiente para o plenário. Desta vez, foi um termômetro que mentiu.
A votação era secreta. E quando os números foram abertos, 42 senadores haviam votado contra um candidato que o próprio presidente da CCJ, Davi Alcolumbre, já havia avisado nos bastidores que seria derrotado — mesmo assim Lula não retirou a indicação. O governo afirmou não ter sido surpreendido. Os mercados, contudo, já processavam o que isso significa para a governabilidade do Executivo.
O Senado, pela primeira vez em mais de um século, disse não. E essa palavra tem consequências que vão muito além de um nome.
O impacto imediato para a bolsa foi lateral — o Ibovespa já havia fechado antes da votação. Mas a questão que fica é mais profunda: se o Senado conseguiu bloquear o presidente neste nível institucional, em que outros pontos essa tensão vai emergir? O programa de renegociação de dívidas que usa R$ 4,5 bilhões do FGTS, anunciado pelo ministro Marinho? A proposta de isenção de combustíveis que a Petrobras quer usar para ajustar preços? O acordo Mercosul-UE que entra em vigor esta semana?
Cada um desses temas precisa do Senado.
O que o mercado vai medir a partir de agora
O Morgan Stanley, em relatório divulgado nesta semana, projetou que o Brasil está "protegido o suficiente" para ver a Selic chegar a 12% se o cenário externo cooperar. Essa projeção pressupõe estabilidade institucional e capacidade do governo de aprovar sua agenda.
Após a rejeição de Messias, essa premissa ficou com uma nota de interrogação ao lado.
O Copom cortou a Selic para 14,50% com linguagem mais cautelosa do que o mercado esperava. O comunicado citou "incerteza externa" e o conflito no Oriente Médio como fatores que condicionam os próximos passos. Economistas do BTG leram a mensagem como sinal de que junho pode ter uma pausa no ciclo. Se o front político interno adicionar uma nova camada de ruído, a pausa pode chegar antes do esperado.
O cenário que sustenta continuidade no corte de juros exige que o governo recupere rapidamente a capacidade de articulação no Senado e apresente um novo nome ao STF que não acirre os ânimos. Lula terá de indicar alguém diferente — e a escolha do próximo nome será monitorada com atenção redobrada. Qualquer candidato que gere nova resistência no Senado ativa o mesmo mecanismo.
O cenário alternativo é mais nebuloso: se o impasse político se aprofundar, com o Executivo bloqueado em pautas fiscais ou regulatórias, o câmbio volta a sentir pressão. O dólar já fechou exatamente em R$ 5,00 nesta quarta-feira — no limite de um nível psicológico que o mercado monitorou durante meses.
A pergunta que os investidores levam para quinta-feira não é se Lula vai indicar outro nome ao STF. Vai. A pergunta é: quem aceitará essa indicação, quando — e o que o Senado vai exigir em troca?