Sadia Halal US 2 bi|Fundo Saudita Compra enquanto EUA Processam

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O dia em que o Brasil foi atacado e abraçado ao mesmo tempo

Na mesma segunda-feira, a maior empresa de carne do Brasil recebeu duas notícias que não deveriam caber no mesmo dia.

De Washington, o governo dos Estados Unidos lançou uma ofensiva legal contra as quatro maiores processadoras de carne que operam no país. JBS, National Beef — subsidiária da Marfrig, que junto com a BRF formou o conglomerado MBRF — , Tyson e Cargill foram colocadas na mira do Departamento de Justiça norte-americano. O conselheiro Peter Navarro afirmou que a concentração de 85% do mercado "convida a um conluio" e classificou a propriedade brasileira como ameaça à segurança nacional dos Estados Unidos. A secretária de Agricultura, Brooke Rollins, foi ainda mais direta: metade das gigantes do setor são de propriedade brasileira, e isso, disse ela, é um problema.

Horas antes, no domingo, a mesma MBRF havia anunciado algo completamente diferente. A subsidiária BRF GmbH formalizou uma joint venture com a Halal Products Development Company, braço do fundo soberano da Arábia Saudita — o Public Investment Fund, o mesmo fundo por trás de projetos como a Neom e o investimento bilionário no futebol mundial. A nova empresa, batizada de Sadia Halal, nasceu com valor empresarial estimado em 2,07 bilhões de dólares. O acordo inclui fornecimento exclusivo de proteínas do Brasil por dez anos, operações em 14 países islâmicos e acesso a mais de 350 milhões de consumidores. E já tem IPO previsto na bolsa de Riade.

O Ibovespa recuou 0,92% no pregão, puxado pela queda de mais de 3% da Vale — que sofreu com a saída de investidores estrangeiros em força. Bancos e construtoras também pesaram. Mas as ações da Marfrig, a MBRF3, avançaram mais de 2% na contramão do índice. O mercado doméstico escolheu um lado da história para precificar.

A questão que ficou no ar é esta: como a mesma empresa pode ser, no mesmo dia, uma ameaça à segurança nacional dos Estados Unidos e um ativo estratégico do maior fundo soberano do Oriente Médio?

Dois mundos, um mesmo frigorífico

A resposta começa pela geografia do poder de compra.

O ataque de Washington mira o mercado interno americano. Navarro quer controlar a inflação da carne bovina nos Estados Unidos, e a concentração de 85% do abate em quatro empresas é o alvo político. A lógica é doméstica — os pecuaristas americanos reclamam de ter poucas opções para vender seus animais, os consumidores reclamam de preços altos, e o governo Trump encontrou um culpado com nome e endereço no exterior.

Mas o fundo saudita não está olhando para a carne bovina americana. Está olhando para o mercado halal global, que movimenta mais de 2 trilhões de dólares por ano. O consumo de alimentos halal deve superar 1,5 trilhão de dólares até 2027, impulsionado por uma população muçulmana de 1,9 bilhão de pessoas. A Sadia já é uma marca consolidada no Oriente Médio — fábricas na Arábia Saudita e nos Emirados Árabes Unidos, distribuição no Catar, Kuwait e Omã. Para o PIF, o que estava em jogo não era a carne em si, mas a plataforma de distribuição de proteínas para o mundo islâmico.

Aí está o mecanismo que torna esse movimento tão difícil de decifrar de longe. Uma investigação antitruste nos Estados Unidos não alcança ativos industriais em Riade. Uma sentença do Departamento de Justiça americano não cancela um contrato de fornecimento de dez anos firmado em Abu Dhabi. Os dois eventos vivem em jurisdições, moedas e lógicas de mercado completamente distintas.

O que a MBRF fez — provavelmente de forma deliberada — foi separar os dois negócios antes que o risco americano contaminasse o ativo saudita. A BRF GmbH, veículo constituído na Alemanha, é a entidade que detém 90% da Sadia Halal. Não é a MBRF brasileira. Não é a JBS. É uma estrutura projetada para isolar o negócio internacional dos riscos jurídicos do mercado americano.

Esse isolamento tem um custo implícito. Se o DOJ avançar e forçar desinvestimentos ou multas pesadas na operação americana, o caixa do grupo pode ser pressionado — justo quando a Sadia Halal precisa de capital para o IPO em Riade. O acordo prevê um aporte adicional de 73,1 milhões de dólares da HPDC até dezembro de 2026. Se o cenário jurídico nos Estados Unidos piorar antes disso, a equação muda.

O que vem depois do IPO em Riade

O IPO da Sadia Halal na Tadawul — a bolsa saudita — não tem data definida, mas o anúncio de que os preparativos já começaram é um sinal deliberado para o mercado. A Arábia Saudita tem usado sua bolsa de valores como instrumento geopolítico desde a listagem da Aramco em 2019. Trazer uma empresa de proteínas brasileiras para listar em Riade é parte da estratégia do PIF de construir cadeias de abastecimento alimentar soberanas — uma das maiores obsessões dos países do Golfo após os choques de commodities de 2022.

Para o Brasil, o movimento abre uma porta que raramente se abre. Empresas brasileiras raramente listam em bolsas estrangeiras. Fazê-lo em Riade, com patrocínio do fundo soberano saudita, é uma validação de que o agronegócio brasileiro tem demanda de capital além do circuito ocidental tradicional.

O precedente histórico mais próximo é o da Vale. A empresa listou recentemente dois navios da classe Guaibamax movidos a etanol — justamente o etanol de milho brasileiro que, nesta semana, recebeu aprovação da Organização Marítima Internacional como o primeiro biocombustível com pegada de carbono definida para uso marítimo. Dois movimentos distintos, o mesmo padrão: o Brasil encontrando mercados alternativos para o que produz, sem passar necessariamente por Washington ou Bruxelas.

A incógnita é a velocidade. O processo do DOJ pode se arrastar por anos. O IPO precisa de janela de mercado favorável. Se a bolsa de Riade enfraquecer — algo que pode acontecer se os preços do petróleo recuarem com um acordo de paz no Estreito de Ormuz — a janela do IPO fecha antes de abrir de verdade.

Os números a observar nos próximos meses são dois. O primeiro é o andamento do caso antitruste americano: se o DOJ anunciar um acordo formal ainda em maio, como sugeriu o procurador Todd Blanche, o impacto sobre a MBRF será quantificável rapidamente. O segundo é o preço do Brent — se recuar abaixo de 90 dólares de forma sustentada, o sentimento do mercado saudita muda e o IPO pode ser postergado.

Por ora, a evidência disponível aponta para uma empresa que conseguiu, em 48 horas, atrair o maior fundo soberano do mundo para seu lado. Isso não elimina o risco americano, mas o coloca em perspectiva. A MBRF3 encerrou o dia em alta enquanto o Ibovespa caía. O mercado brasileiro, ao menos por hoje, escolheu ficar com a Arábia Saudita.

O que vai provar que essa leitura está errada é simples: se o DOJ anunciar uma ação formal com pedido de desinvestimento da operação americana antes de dezembro de 2026, o isolamento jurídico da Sadia Halal vai ser testado de verdade — e aí saberemos se a estrutura de proteção resiste ou se os dois mundos eram, afinal, um só.

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