Santander SANB11|Lucro cai 17,6%, ROE abaixo da Selic

· B3

O tri horroroso

As units do Santander Brasil, SANB11, desabaram mais de 7% nesta quarta-feira, a maior queda intradiária desde outubro de 2022. O gatilho foi o balanço do segundo trimestre: lucro líquido gerencial recorrente de R$ 3,014 bilhões, queda de 17,6% em um ano e de 20,4% frente ao trimestre anterior, abaixo do consenso que projetava algo entre R$ 3,4 bilhões e R$ 3,7 bilhões.

O retorno sobre o patrimônio, o ROE, recuou para 12,5%, distante 3,8 pontos da marca de um ano atrás e cada vez mais longe da meta de 20% prometida pela matriz. As provisões contra calotes somaram R$ 7,654 bilhões, alta de quase 21% no trimestre, pressionadas por empresas, agronegócio e o segmento de baixa renda.

A resposta imediata que o mercado já formou é que o tropeço concentra-se no Santander, não no sistema bancário como um todo. Mas essa leitura provisória convive com um detalhe que o balanço não resolve sozinho: por que justamente a margem com clientes, e não apenas as provisões, decepcionou tanto os analistas.

A disputa sobre a causa

O Santander atribuiu a compressão da margem financeira à mudança de perfil da carteira, com menos exposição a clientes de baixa renda e mais crédito com garantia, como imobiliário e financiamento de veículos. Para o JPMorgan, essa explicação não é suficiente. O banco americano classificou a intensidade da queda no spread, de 10,41% para 10,03% no trimestre, como difícil de justificar apenas pela composição da carteira.

O contágio setorial foi imediato e mensurável. Itaú, Bradesco e Banco do Brasil caíram entre 1,3% e 2,4% na mesma sessão, arrastados pela dúvida sobre se o problema de rentabilidade é isolado. Os quatro maiores bancos listados respondem por cerca de 19% da carteira teórica do Ibovespa, o que explica por que o tombo do Santander sozinho pressionou o índice inteiro.

Aqui a resposta provisória se torna mais precisa e mais condicional. O Itaú BBA argumenta que o resultado do Santander não deve servir de régua para os concorrentes, já que o banco carrega uma trajetória de receita mais fraca há anos e problemas específicos de inadimplência. Já o analista-chefe da Mantaro Capital, Pedro Gonzaga, aponta para outra hipótese, a de que o Santander está subprovisionado especificamente, o que ele lê como um problema pontual da instituição.

O horizonte que o CFO admite

Na teleconferência, o CFO Carlos Muñiz adotou um tom pouco comum entre executivos financeiros. Disse não estar otimista com o cenário macroeconômico e afirmou que uma melhora consistente nas provisões deve começar apenas no início de 2027, não no fim de 2026 como o mercado ainda esperava. Ele citou ainda a resolução 4.966 do Banco Central, que exige atualização dos modelos de risco e deve gerar pressão adicional sobre as provisões neste quarto trimestre.

O dado que resume o tamanho do desafio é simples: o ROE de 12,5% está abaixo da Selic, hoje em 14,25% ao ano, a taxa livre de risco que o mercado usa como custo de oportunidade do capital. Enquanto isso persistir, o banco converte capital em retorno inferior ao de aplicar em títulos públicos, e essa é a régua que os investidores realmente cobram.

A resposta mais precisa que o trimestre entrega é que o Santander fez uma escolha deliberada: trocar linhas de crédito mais rentáveis e arriscadas por uma carteira mais segura, sacrificando margem no curto prazo. O CFO resumiu a aposta dizendo preferir um banco chato e previsível a um banco cheio de surpresas. A questão em aberto é se o mercado está disposto a esperar até 2027 para ver essa troca compensar, ou se vai continuar penalizando a ação enquanto o ROE seguir abaixo do custo de capital.

Link copied