Simpar SIMH3 vende porto por R1,8 bi|JPMorgan neutro, Santander vê alta de 100%

· B3

A venda que fez a ação disparar

A Simpar assinou nesta quinta-feira a venda integral da CS Porto Aratu, seus terminais na Bahia, para a filipina ICTSI, por um valor de empresa de um bilhão e oitocentos milhões de reais. As ações da holding chegaram a subir seis vírgula quarenta e três por cento na abertura, negociadas a sete reais e setenta e oito centavos, entre as maiores altas do Ibovespa no dia.

Mas o salto na cotação não responde à pergunta que realmente importa para quem olha o papel hoje. A holding negocia a três vírgula seis vezes o seu Ebitda, segundo o JPMorgan, enquanto o próprio ativo vendido saiu por oito vírgula um vezes. Esse é o número que decide se a alta de hoje é o início de uma correção maior ou já é o teto do movimento.

A Simpar investiu apenas cento e vinte e oito milhões de reais de capital próprio no terminal e devolveu um múltiplo sobre o capital investido de cinco vírgula oito vezes em três anos e meio. É a terceira reciclagem de ativos de infraestrutura da holding em pouco mais de um ano, depois da venda da Ciclus Rio e de uma fatia da Ciclus Amazônia.

O mesmo número, dois vereditos opostos

É aqui que a leitura se divide. O JPMorgan descreve a venda como um acontecimento positivo, que reforça a estratégia de desalavancagem e reduz a dívida líquida da holding para cerca de quatrocentos e cinquenta milhões de reais. Mas mesmo chamando o negócio de positivo, o banco manteve a classificação neutra para a ação.

Do outro lado, o Santander mantém recomendação de compra com preço-alvo de vinte e dois reais, mais de cento e trinta por cento acima da cotação atual. O Itaú BBA também recomenda compra, mas com um alvo de onze reais e cinquenta centavos, menos da metade do número do Santander. Os três bancos leram o mesmo fato relevante, o mesmo múltiplo, e chegaram a conclusões que não convergem nem entre os otimistas.

A divergência não está na qualidade do negócio, todos concordam que ele foi bem executado. Está em quanto do desconto histórico da holding — a diferença entre o valor de mercado da Simpar e a soma de seus ativos individuais — essa venda efetivamente destrava. Um alvo de vinte e dois reais assume que o desconto vai fechar quase por completo; um alvo de onze reais e cinquenta assume que parte dele é estrutural e não desaparece com uma venda isolada.

O histórico por trás da aposta

Esta não é a primeira vez que a Simpar testa essa tese. A holding já vendeu a Ciclus Rio por um bilhão e cem milhões de reais em valor patrimonial e uma fatia da Ciclus Amazônia por cento e vinte e um milhões. Somados os três desinvestimentos de infraestrutura, a taxa interna de retorno média chega a trinta e seis por cento ao ano, vinte e quatro pontos percentuais acima do CDI no mesmo período.

Se o fechamento se confirmar como projetado, a dívida líquida no nível da holding recua de dois bilhões e oitocentos milhões para algo próximo de quatrocentos e cinquenta milhões de reais, segundo as contas do JPMorgan. A alavancagem consolidada do grupo, que soma as dívidas das empresas do portfólio, cairia de três vezes o Ebitda para dois vírgula sete vezes.

Nada disso está fechado ainda. A conclusão da operação depende da aprovação do Conselho Administrativo de Defesa Econômica e da anuência do poder concedente sobre a concessão portuária, além do cumprimento de metas de earn-out nos dezoito meses seguintes ao fechamento para os cem milhões de reais restantes do valor total.

O que decide se o alvo é R$22 ou R$11,50

Para quem já carrega a ação, o próximo evento que separa a tese do risco não é outro balanço trimestral, é a aprovação do Cade e do poder concedente. Uma aprovação sem restrições dentro do prazo esperado confirma a trajetória de queda da dívida líquida da holding e reforça a leitura de que o desconto começa a fechar.

Um atraso ou uma exigência regulatória que reabra a negociação dos termos, por outro lado, congela os recursos que sustentam a queda da dívida projetada e devolve a ação ao mesmo múltiplo de três vírgula seis vezes o Ebitda que já vigorava antes do anúncio, sem o alívio de caixa que justifica hoje o otimismo do Santander.

Para quem ainda está de fora, a decisão não é sobre acreditar no negócio anunciado hoje, que já está precificado. É sobre quanto do desconto de holding resta depois do fechamento efetivo dos recursos, e isso só fica visível quando o Cade decidir e a dívida líquida projetada aparecer confirmada no balanço seguinte.

Link copied