Smart Fit cai após balanço|Crescimento ainda intacto?

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A queda e a transição da tese

À primeira vista, a queda de 7,82% da Smart Fit após um balanço com receita de R$ 2,18 bilhões e Ebitda de R$ 712 milhões parece incoerente. A leitura mais consistente é que o mercado não abandonou o crescimento operacional, mas passou a cobrar sua conversão em lucro e caixa: o lucro recorrente subiu apenas 8%, abaixo das expectativas citadas, e o fluxo de caixa operacional ficou aquém do projetado. Portanto, o episódio parece mais uma transição de tese do que uma quebra imediata — embora ainda não esteja claro se a expansão da TotalPass compensará a pressão sobre as academias próprias e o aumento da dívida.

A empresa além das academias

A cobertura anterior apresentava a Smart Fit como uma empresa que havia ultrapassado o modelo tradicional de academias. Receita e Ebitda cresciam mais rápido que a rede física, mais de metade das lojas já estava fora do Brasil, e a administração projetava que mais de 60% do resultado viesse do exterior. A TotalPass também aparecia como uma plataforma em rápida expansão, com 35% de participação no mercado brasileiro, contra 27% um ano antes.

Crescimento robusto, abaixo do esperado

O novo balanço confirmou parte dessa história. A receita cresceu 22%, o Ebitda avançou 24% e a margem Ebitda subiu para 32,7%. Mas o lucro recorrente de R$ 204 milhões ficou abaixo das projeções, pressionado por despesas financeiras e impostos. A receita da divisão “Outros”, que inclui a TotalPass, franquias e negócios digitais, cresceu 47%, mas ficou cerca de 18% abaixo da estimativa do Morgan Stanley. Para uma empresa avaliada pela velocidade de crescimento, entregar expansão robusta, mas ligeiramente inferior ao esperado, pode ser suficiente para provocar uma reprecificação.

A migração para a TotalPass

Há uma segunda leitura, menos óbvia. A TotalPass pode estar reduzindo parte da dependência das mensalidades tradicionais ao mesmo tempo que altera a composição da base de clientes. A plataforma chegou a 2,2 milhões de usuários no Brasil e no México, com margem bruta de 84,7%, e já representou 17% do lucro bruto da companhia. Ao mesmo tempo, o BTG registrou queda de clientes nas academias próprias brasileiras e atribuiu esse movimento, ao menos em parte, à maior penetração da TotalPass. Ou seja, uma fraqueza aparente no negócio convencional pode ser uma migração para uma operação de margem maior.

O custo da expansão

Mas essa explicação ainda é uma interpretação, não uma prova de que a substituição será economicamente neutra. A receita líquida por academia no Brasil caiu 5% na comparação anual, enquanto o fluxo de caixa operacional somou R$ 530 milhões, abaixo dos R$ 694 milhões esperados pelo Morgan Stanley. A dívida líquida chegou a R$ 4,6 bilhões. Quem paga pela expansão hoje é a própria companhia, enquanto os benefícios da maturação das unidades e da plataforma precisam aparecer adiante.

Força regional, pressão no México

Também há evidência contra uma leitura de deterioração generalizada. A receita brasileira cresceu 17%, apoiada por reajustes, maior participação do plano Black e uso da TotalPass. Nas demais operações latino-americanas, a receita avançou 22% e o Ebitda cerca de 30%, com margem de 50,8%. O México é o ponto mais pressionado, porque muitas unidades ainda estão amadurecendo e os custos trabalhistas, de ocupação e de serviços reduziram a margem.

Uma fase mais exigente

Por isso, o choque atual parece menos uma reversão do ciclo e mais o início de uma fase mais exigente. A Smart Fit encerrou o trimestre com 232 unidades no pipeline, 134 em construção e uma meta de 330 a 350 inaugurações em 2026. A rede cresceu 343 unidades em um ano, mas esse ritmo exige capital, capital de giro e capacidade de transformar novas academias em caixa. O crescimento continua visível; a dúvida passou a ser quanto dele chegará ao acionista depois das despesas financeiras e dos investimentos.

Três camadas para acompanhar

Para o detentor da ação, a reconsideração principal é separar três camadas que antes pareciam uma só: expansão física, crescimento da TotalPass e geração de caixa. Para quem acompanha de fora, o lucro de R$ 204 milhões não basta para avaliar o trimestre. Será preciso observar se a TotalPass continua ampliando usuários e lucro bruto sem aprofundar a queda da base própria, e se o caixa melhora enquanto a companhia executa o pipeline anunciado.

O próximo teste

O próximo teste observável está justamente na execução dessas 232 unidades e na conversão da plataforma em caixa. Se as inaugurações avançarem dentro da meta, a margem permanecer resiliente e a dívida parar de crescer proporcionalmente, a queda pode ter sido apenas uma correção de expectativas. Se a receita continuar abaixo do previsto, o fluxo de caixa permanecer fraco e a expansão da TotalPass vier acompanhada de perda persistente nas academias próprias, a pressão atual será mais estrutural.

A tese agora depende da conversão

A evidência disponível sustenta uma conclusão intermediária: a operação da Smart Fit permanece forte, mas a tese deixou de ser apenas crescimento. Ela agora depende da qualidade desse crescimento e da sua conversão financeira. Os artigos ainda não permitem saber se a migração para a TotalPass será uma ampliação rentável do negócio ou uma substituição parcial de clientes diretos. Essa é a fronteira que o próximo balanço precisará esclarecer.

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