Tensão no Ormuz Derruba B3|Petrobras na contramão
Ormuz e o Ibovespa
O Ibovespa fechou em queda de 0,92% nesta segunda-feira enquanto o petróleo Brent disparava 5,8%, chegando a US$ 114 o barril. Dois movimentos opostos, no mesmo dia, com o mesmo gatilho. O Irã anunciou que interceptaria à força qualquer embarcação que violasse suas normas no Estreito de Ormuz, após Washington declarar que escoltaria navios retidos na região. O Comando Central dos EUA negou ataques, mas o mercado não esperou pela confirmação oficial.
O canal pelo qual passa 20% do petróleo mundial virou palco de uma crise que os investidores ainda não conseguem precificar. O petróleo WTI fechou em alta de 4,29%, a US$ 106 o barril, puxando as ações de empresas de energia para cima — mas derrubando quase tudo o mais. A aversão ao risco que se instalou nas bolsas americanas, com o Dow Jones em queda de 1,13%, contaminou os ativos brasileiros mesmo sem nenhuma notícia doméstica grave.
O efeito mais visível foi na Vale. As ações caíram 3,1%, para R$ 78,66, mesmo com o minério de ferro avançando 1,6% na bolsa de Dalian. Investidores estrangeiros reduziram posições na B3 em ritmo acelerado, e a Vale — o papel com maior peso de fluxo externo no índice — absorveu o impacto desproporcional. O Itaú BBA havia sinalizado, após os resultados do primeiro trimestre, que os custos da mineradora estavam mais altos que o esperado, pressionados por câmbio e petróleo. Agora, com o petróleo acima de US$ 100, essa pressão de custos se torna mais duradoura.
O mercado também repercutiu o Boletim Focus, que elevou pela oitava semana consecutiva a projeção do IPCA para 2026, agora em 4,89%. A combinação de juros altos, petróleo caro e inflação que não cede criou um ambiente hostil para bancos e construção. O Bradesco caiu 2,12%, o Itaú recuou 1,78%, e a Cyrela cedeu 4,98%.
Petrobras e Embraer
Enquanto o mercado recuava, duas empresas brasileiras se moveram na direção oposta — e por razões que vão além do pregão de hoje. A conexão entre elas revela um Brasil que está se beneficiando da mesma crise que assusta os investidores.
A Petrobras avançou 0,53% no mesmo dia em que o Ibovespa caiu quase 1%. O movimento reflete uma leitura simples: petróleo caro favorece quem extrai petróleo. Mas a dimensão do que está acontecendo com a estatal é mais profunda do que o ciclo de preços. No primeiro trimestre de 2026, a Petrobras extraiu 2,58 milhões de barris por dia no Brasil — acima da meta anual estabelecida pela própria companhia, fixada em 2,5 milhões. O BTG Pactual elevou o preço-alvo dos ADRs de US$ 21 para US$ 25, e projeta um Ebitda de US$ 13 bilhões no trimestre, geração de caixa livre de US$ 4,8 bilhões e dividendos de US$ 2,1 bilhões — apenas no período de janeiro a março.
Com barril projetado a US$ 82 para o restante de 2026, o banco estima dividend yield de 9% e retorno ao acionista próximo de 11%. O excesso de caixa que a companhia deve gerar ao longo do ano abre espaço para dividendos extraordinários, além dos já previstos. É uma tese de valor que se fortalece exatamente quando o cenário externo piora.
A Embraer foi na mesma direção, com alta de 3,75%. A empresa assinou nesta segunda-feira, em Abu Dhabi, o maior contrato internacional do C-390 Millennium com um único país: os Emirados Árabes Unidos comprarão 10 aeronaves, com opção de compra de mais 10. O contrato prevê ainda o desenvolvimento de capacidade de manutenção nos EAU e suporte pós-venda local — o que representa transferência de conhecimento técnico para a região. O C-390 compete com o Airbus A400M e o Lockheed C-130J Hercules. Vencer um cliente do Golfo com essa concorrência é um argumento comercial que a Embraer poderá usar em negociações com outros países da região, que também operam ou avaliam o reequipamento de suas forças aéreas.
Sadia Halal e o próximo capítulo
A Marfrig, que opera a BRF, subiu 3,27% no mesmo dia em que o Ibovespa caiu. A razão está em um acordo que conecta o Brasil ao mercado halal global de forma estrutural — e que ainda não foi totalmente absorvido pelo mercado.
No domingo, a MBRF e o fundo soberano saudita Public Investment Fund concluíram a criação da Sadia Halal, uma joint venture avaliada em US$ 2,07 bilhões. A empresa reúne fábricas na Arábia Saudita e nos Emirados Árabes Unidos, centros de distribuição no Catar, Kuwait e Omã, e um contrato de fornecimento de 10 anos pelas plantas da BRF no Brasil. A MBRF detém 90% do capital; o fundo saudita fica com 10% — por ora.
O CEO da HPDC, braço do fundo soberano, revelou ao Estadão que a intenção é elevar a participação para entre 30% e 40% antes do IPO na bolsa de Riade. A expansão de 10% para 20% já está estruturada como aquisição secundária, o que significa entrada de US$ 170 milhões no caixa da MBRF. A evolução para 30% e depois para 40% combinará operações secundárias e primárias — parte vai para a MBRF, parte diretamente para o caixa da Sadia Halal. O Safra mantém recomendação de compra para MBRF3 com preço-alvo de R$ 30,50, potencial de alta de 75% sobre o fechamento desta segunda.
O mercado halal movimenta mais de US$ 2 trilhões ao ano, com uma base de 1,9 bilhão de consumidores muçulmanos. A Sadia já é marca consolidada no Oriente Médio, e o licenciamento de marca para a joint venture preserva esse ativo intangível. O IPO em Riade ainda não tem data definida — o Safra espera 2027 — mas os preparativos foram iniciados imediatamente após o fechamento do acordo.
A questão que o mercado vai precisar responder nas próximas semanas é se o Ormuz resolverá antes de comprometer a execução desse plano. Os clientes finais da Sadia Halal estão exatamente na região onde navios americanos e iranianos se confrontam. Se a tensão geopolítica se aprofundar, o custo logístico e o risco operacional na região sobem — e a tese do IPO em Riade fica condicionada a uma estabilização que ainda não tem data. Se o conflito recuar, o que forçaria uma confirmação seria o petróleo Brent caindo abaixo de US$ 100 sustentado por dois pregões consecutivos. Esse é o número a monitorar.