77% Endividados|Crédito fácil e o risco que o mercado ignora
O número que o mercado celebrou sem ler
Setenta e sete por cento das famílias brasileiras estão endividadas. Não é projeção — é o dado de dezembro de 2024 da Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor. E nesta segunda-feira, enquanto o Ibovespa renovava recorde intradia aos 198 mil pontos e o dólar fechava abaixo de R$ 5 pela primeira vez em dois anos, o Banco Central publicou um relatório classificando o superendividamento como "problema crescente" no país.
Dois eventos simultâneos, lidos em direções opostas. O mercado celebrava o consumo interno como âncora de resiliência brasileira. O BC apontava que a base desse consumo está rachando por baixo.
A narrativa dominante dos últimos trimestres foi simples: crédito fluiu, famílias gastaram, o varejo segurou o PIB. Com a Selic elevada comprimindo a demanda externa e o cenário global volátil, o consumidor doméstico virou o argumento principal para quem defende que o Brasil aguenta o ciclo. Analistas de grandes bancos repetiram a tese. O Ibovespa precificou parte dela. O dólar recuou.
Mas o Relatório de Cidadania Financeira do Banco Central não veio confirmar o otimismo. Veio com uma avaliação diferente: a facilidade de acesso ao crédito, somada à falta de educação financeira, leva muitos brasileiros a contrair dívidas que não conseguem pagar. Três em cada quatro famílias no país já estão dentro dessa conta.
As premissas que sustentam a tese do consumo
Para que o consumo doméstico continue funcionando como colchão da economia brasileira, três premissas precisam se manter ao mesmo tempo.
A primeira é que inadimplência permanece controlada. O argumento mais usado é que, mesmo com 77% das famílias endividadas, o índice de calotes ainda não disparou de forma sistêmica. Verdade — até agora. Mas o BC já sinalizou que o ritmo de deterioração preocupa. Inadimplência não explode, ela acumula. Quando os números aparecem nos balanços bancários, o processo já tem meses de atraso.
A segunda premissa é que o crédito continuará disponível. Aqui o ponto é circular: bancos que dependem de carteira de pessoa física para crescer são os mesmos que precisam de famílias solventes para sustentar essa carteira. Quando 77% já estão endividadas, a margem para crescimento saudável da carteira encolhe. Cresce por cima de quem já está no limite.
A terceira premissa é que a renda real compensa o serviço da dívida. Salário mínimo subiu, mercado de trabalho resistiu. Mas com Selic em dois dígitos, o custo do crédito rotativo — cartão, cheque especial — mantém o tomador preso num ciclo onde cada pagamento mínimo realimenta o saldo devedor. O BC citou exatamente isso: ausência de oferta responsável de crédito como agravante estrutural.
As três premissas têm rachaduras visíveis. E o mercado, ocupado com o recorde do Ibovespa e a queda do dólar, ainda não precificou o que acontece quando as rachaduras aparecem juntas.
O que muda se a tese quebrar
O setor mais exposto a uma deterioração do crédito de pessoa física no Brasil é o mesmo que mais cresceu nos últimos dois anos: os bancos digitais e financeiras com carteira concentrada em segmentos de menor renda. Nubank, Hapvida indiretamente via planos de saúde populares, e o varejo que financiou expansão no crédito ao consumidor sem elevar proporcional de provisionamento.
Para as grandes instituições — Itaú, Bradesco, Santander — o impacto chega com defasagem, mas chega via aumento de provisões, compressão de margem líquida e redução de carteira de crescimento. Não é colapso imediato. É erosão trimestral.
O cenário construtivo ainda existe. Se a renda real continuar crescendo acima da inflação, e se os bancos desacelerarem voluntariamente a concessão para os segmentos mais sobrecarregados, o ciclo pode se estabilizar antes de escalar. O Banco Central tem instrumentos macroprudenciais que ainda não foram usados na intensidade máxima.
Mas o cenário construtivo exige que os três pressupostos citados se mantenham — e o relatório publicado hoje é uma sinalização explícita de que o regulador não acredita que o equilíbrio atual seja sustentável. Quando o BC usa a palavra "crescente" para descrever um risco, não está sendo neutro.
O referencial a acompanhar é a inadimplência de pessoa física no relatório do Banco Central de maio, especialmente no segmento de crédito rotativo. Se o indicador superar 35% nesse segmento — patamar que historicamente precede revisões de política de crédito pelos grandes bancos — a tese do consumo como colchão começa a ser questionada formalmente nas projeções de lucro do setor financeiro.
A incógnita real não é se o endividamento é alto. É quanto tempo o mercado continua olhando para o Ibovespa em 198 mil pontos sem olhar para o que está embaixo.