Petróleo a US 95|Ibovespa na contramão

2026-04-20 · B3

Ormuz e o petróleo

Na segunda-feira, o Ibovespa fechou em alta enquanto Wall Street recuou. Essa inversão não foi coincidência — foi uma questão de onde o petróleo corre.

O Estreito de Ormuz voltou a ser fechado pelo Irã no fim de semana. Por ali passam cerca de 20% de todo o petróleo negociado no mundo. Com a interrupção, o Brent disparou 5,64%, chegando a US$ 95,48 por barril. Para a Bolsa americana, isso significa inflação e risco geopolítico — motivo de venda. Para o Ibovespa, com Petrobras e Prio entre os maiores pesos do índice, significa receita. E foi exatamente isso que aconteceu: enquanto o S&P 500 recuou 0,24% e o Nasdaq perdeu 0,26%, o Ibovespa avançou 0,20%, aos 196 mil pontos.

A XP fez a conta com o cenário mais conservador possível — Brent a US$ 80 o barril, abaixo do patamar atual. Mesmo assim, a Petrobras pode entregar retorno próximo de 11% ao acionista em 2026. A Prio, sem a exposição a políticas de preços do governo federal, estaria ainda melhor: retorno estimado em quase 20% no mesmo cenário. A diferença é que a Prio sobe mais rápido com o barril alto — e cai mais rápido se a guerra acabar.

E o impasse segue sem resolução clara. Negociadores americanos partiram para o Paquistão para nova rodada de conversas, mas o Irã ainda não confirmou participação. O ministro das Relações Exteriores iraniano disse a Islamabade que as "contínuas violações do cessar-fogo" pelos EUA são um obstáculo. Do lado americano, Trump publicou que o novo acordo será "muito melhor" que o JCPOA de 2015 — sem detalhar como. Os analistas do Citi estimam que 500 milhões de barris já foram perdidos desde o início do conflito, e que esse número chegará a 900 milhões mesmo que Ormuz reabra nos próximos dias, porque os estoques globais já estão em queda livre. O nível mais baixo em oito anos é esperado para o fim de junho.

O que isso significa para quem acompanha o mercado: enquanto houver impasse no Oriente Médio, Petrobras e Prio têm vento a favor. O risco está do outro lado — uma resolução rápida poderia derrubar o barril rapidamente, e a Prio, por sua exposição direta, seria a primeira a sentir.

Apple muda de mão

A Apple anunciou nesta segunda-feira a maior troca de comando desde 2011. John Ternus, engenheiro mecânico de 50 anos que passou 25 anos dentro da empresa, vai assumir como CEO a partir de 1º de setembro. Tim Cook, que levou o valor de mercado da companhia de US$ 350 bilhões para US$ 4 trilhões, passa para o conselho como chairman executivo.

A mudança parece uma continuidade — mas sinaliza uma virada de prioridade. Cook foi um guru de cadeia de suprimentos. Ele transformou a Apple em uma máquina capaz de produzir centenas de milhões de unidades por ano com margens crescentes. Ternus é engenheiro de produto. Ele foi o responsável pela geração mais recente de iPhones, MacBooks e AirPods, e pelo chip M1 — que devolveu ao Mac participação de mercado que a linha havia perdido por anos. A Apple está apostando que, na era da inteligência artificial, o diferencial não será mais a escala da produção, mas a qualidade do hardware e dos sistemas integrados.

O contexto importa. A empresa mais valiosa do mundo por muitos anos, a Apple foi superada pela Nvidia, que hoje vale US$ 4,9 trilhões. O mercado de smartphones está maduro. A IA generativa chegou primeiro como software — e as grandes rivais, Google e Microsoft, avançaram mais rápido nessa frente. Ternus vai herdar uma empresa sólida, com mais de US$ 416 bilhões em receita anual, mas com a pressão de mostrar que a Apple sabe competir no novo ciclo tecnológico, não apenas refinar o anterior.

Cook, segundo a Bloomberg, vai se concentrar no relacionamento com líderes políticos ao redor do mundo — incluindo Trump, com quem já mantém relação direta. Enquanto isso, a USA Rare Earth anunciou a compra da mineradora brasileira Serra Verde por US$ 2,8 bilhões, em um negócio que garante aos americanos controle sobre uma das únicas minas ativas de terras raras no Brasil. São os minerais que abastecem chips, baterias e motores elétricos — exatamente a cadeia que a Apple precisa para os próximos dez anos.

Juros, dólar e a temporada

O dólar fechou abaixo de R$ 5 pela quinta sessão consecutiva. Para quem viu a moeda a R$ 6,30 há dois anos, parece uma anomalia. Mas a XP avalia que o movimento tem fundamento — e pode durar.

A tese não é que o Brasil ficou mais sólido. É que o dólar ficou menos atraente. Com Trump criando instabilidade política e econômica nos EUA, investidores globais passaram a diversificar para fora do país. Os mercados emergentes, incluindo o Brasil, receberam parte desse fluxo. O Brasil tem commodities, mercado líquido e está distante dos principais conflitos geopolíticos. O resultado foi uma valorização do real que surpreendeu até os otimistas.

A XP trabalha com três cenários. No mais provável, o dólar fica perto de R$ 5,30 no fim de 2026. No pessimista, ruídos eleitorais e incerteza fiscal empurram a moeda para acima de R$ 5,30, mas abaixo de R$ 6. No mais otimista, o real ganha ainda mais força. O que ainda não está resolvido é o lado dos juros: o boletim Focus revisou para cima as medianas do IPCA e da Selic, com o mercado projetando a taxa básica a 13% no fim de 2026 — acima dos 12,50% anteriores.

É nesse ambiente que começa a temporada de resultados do primeiro trimestre. O BTG projeta piora nos resultados de quase metade das empresas sob sua cobertura. A culpa, diz o banco, são os juros — que pesam sobre endividadas e reduzem margens. Nubank e Inter são os nomes mais observados: o Safra projeta lucro de US$ 926 milhões para o Nubank no trimestre, alta de 66% em relação ao ano anterior, mas com inadimplência subindo e despesas operacionais avançando mais de 70%. A pergunta não é mais se eles crescem. É se crescem com eficiência.

No horizonte imediato, dois eventos definem o tom da semana: a sabatina de Kevin Warsh no Senado americano para confirmar sua indicação como chair do Fed, e os primeiros resultados da temporada, com a Usiminas na sexta-feira. Warsh já sinalizou que vai defender a independência do banco central, mas com limites — e que quer reformar a instituição. Se o mercado ler isso como menos hawkish do que Powell, os juros longos americanos podem ceder. Se ler como mais político, o risco aumenta. O que prova que a tese do dólar abaixo de R$ 5 ainda é frágil: ela depende de Washington continuar parecendo mais instável do que Brasília.