Petróleo US100 Paralisa o Mundo|Juros Futuros no Limite
Ormuz Trava Tudo
O Ibovespa fechou em queda de 0,78% e o dólar voltou aos R$5,00. Mas o que chama atenção não é a queda em si — é que ela aconteceu num dia em que o PMI composto dos Estados Unidos acelerou para 52,0, o melhor resultado em três meses. Crescimento forte lá fora e bolsa caindo aqui. A explicação passa pelo Estreito de Ormuz.
Desde que os ataques israelenses e americanos ao Irã começaram em fevereiro, o Irã efetivamente fechou o estreito. Trinta e três navios já foram redirecionados pela Marinha americana. O petróleo Brent subiu pelo quarto pregão consecutivo e se manteve acima de US$100 o barril. Não é uma spike. É uma sustentação. E é esse patamar sustentado que mudou o cálculo de inflação global.
Nos EUA, o PMI industrial subiu para 54,0 — nível mais alto em 47 meses. Mas a razão para essa alta revela o problema: as empresas estão formando estoques preventivos diante do medo de falta de insumos. Os prazos de entrega dos fornecedores pioraram. Os preços de produção chegaram ao nível mais alto em quase quatro anos. Crescimento acompanhado de pressão inflacionária não abre espaço para cortes de juros.
No Brasil, esse cálculo chegou à curva de juros com força. O DI para janeiro de 2029 fechou a 13,575%, um avanço de 27 pontos-base em um único pregão. O DI para janeiro de 2031 subiu para 13,625%. Em paralelo, o Tesouro Nacional realizou um leilão de 21 milhões de títulos prefixados, adicionando um DV01 de US$929 mil ao mercado — num momento em que os investidores já estavam absorvendo emissões robustas de NTN-B do dia anterior. Gestores como Gustavo Okuyama, da Porto Asset, avaliam que o Tesouro está emitindo em um tamanho que o mercado não está preparado para absorver. O resultado foi que o Tesouro Direto acumula prejuízo de até 6% na marcação a mercado em apenas sete pregões. O Tesouro Renda+ 2065 caiu de R$215,60 para R$202,87.
No fim do pregão, o governo anunciou uma proposta ao Congresso para transformar ganhos extraordinários de arrecadação com petróleo em cortes de PIS/Cofins sobre gasolina, diesel e etanol. O mercado reagiu negativamente. Cada R$0,10 de tributo cortado na gasolina representa R$800 milhões de impacto fiscal a cada dois meses. A dúvida que ficou é se o mecanismo de compensação fiscal será robusto o suficiente — ou se o governo está trocando arrecadação futura por alívio de curto prazo.
Duas Bolsas, Um País
O Ibovespa está nas máximas históricas. O SMAL11, o ETF de small caps, está 20% abaixo do pico de 2021. Esses dois fatos coexistem hoje no mesmo mercado, e a divergência não é acidente — ela revela quem está comprando e quem está vendendo.
Neste ano, investidores estrangeiros injetaram R$65 bilhões na B3. Esse capital foi direcionado para os papéis mais líquidos, diretamente ou via ETFs. No mesmo período, os institucionais locais retiraram cerca de R$50 bilhões. O movimento criou o que analistas descrevem como "duas bolsas": uma irrigada por capital externo e outra negligenciada por ele. Petrobras e PRIO, que juntos somam cerca de 15% do Ibovespa, subiram em torno de 50% desde janeiro, ajudando a empurrar o índice. As small caps, dependentes de investidores locais sensíveis ao ciclo de juros doméstico, ficaram para trás.
André Esteves, chairman do BTG Pactual, ofereceu o contexto macro para esse movimento no Latam Focus 2026 em Santiago. A tese é que os Estados Unidos funcionaram como um buraco negro financeiro nos últimos quatro ou cinco anos, atraindo capital de todo o mundo para a revolução tecnológica. Mas com valuations esticados — a Nvidia chegou a valer quase o mesmo que todo o mercado acionário japonês — e incerteza sobre quem serão os vencedores reais da inteligência artificial, o capital global começou a buscar saída. A América Latina, nas palavras de Esteves, é a produtora de baixo custo de quase todas as commodities essenciais, e suas empresas ainda negociam a múltiplos de liquidação em comparação com EUA e Europa. Mas ao mesmo tempo, Esteves fez um alerta direto: "Árvores não crescem até o céu." Após o forte rali, o momento exige cautela e seletividade, não acumulação indiscriminada.
A temporada de resultados do primeiro trimestre começa nesta sexta-feira com a Usiminas. O BTG Pactual lançou uma planilha cobrindo mais de 120 empresas listadas. O contexto do período é conhecido: guerra entre EUA e Irã desde o fim de fevereiro, petróleo a US$100, Selic que caiu de 15% para 14,75% em março mas com espaço para novos cortes reduzido. Analistas da Empiricus alertam que os resultados devem seguir pressionados por juros elevados. O diferencial competitivo de cada empresa será o que separará os balanços bons dos ruins. E é justamente nessa seletividade que reside a oportunidade — não em comprar o índice inteiro.
Vale mencionar um sinal lateral nesse ambiente de reconfiguração de cadeias globais: a Serra Verde, único ativo operacional de terras raras no Brasil, foi vendida por US$2,8 bilhões para a USA Rare Earth. O BTG Pactual prevê que a transação inaugura uma onda de aquisições no setor, com projetos como Aclara, Viridis e Meteoric como possíveis próximos alvos. A China ainda domina o processamento global de terras raras, e o Ocidente está disposto a pagar para mudar isso.
O Que Vem Depois
Os três fios que percorreram o dia apontam para o mesmo nó. O petróleo acima de US$100 é a causa raiz: ele eleva a inflação global, restringe o espaço para cortes de juros, pressionou os DIs brasileiros para máximas recentes e fez o Ibovespa recuar de suas máximas históricas. O capital estrangeiro que entrou no Brasil este ano veio em parte buscando commodities e proteção contra a instabilidade americana — mas esse mesmo capital, concentrado nos papéis mais líquidos, criou uma bolsa dual onde as small caps ficaram orphaned. E a temporada de resultados que começa agora vai revelar quais empresas conseguiram atravessar o trimestre mais turbulento do ano com margens preservadas.
O peso das evidências aponta para uma continuidade de pressão no curto prazo: enquanto o Estreito de Ormuz permanecer bloqueado e o petróleo acima de US$100, os DIs dificilmente recuarão de forma sustentada. A proposta fiscal do governo sobre PIS/Cofins depende de aprovação no Congresso e carrega risco de deterioração do resultado primário — o mercado já mostrou que não gosta da incerteza fiscal. Nesse cenário, o Ibovespa deve oscilar abaixo dos 200 mil pontos, com suportes identificados pelo Itaú BBA em 188.100 e 184.300 pontos.
Mas o cenário tem uma saída. Se as negociações no Oriente Médio avançarem — e o sinal para monitorar é a volta do presidente do Parlamento iraniano à mesa de negociações, de onde saiu nesta quinta-feira — o petróleo recua, os DIs fecham, e há espaço para um rali rápido nas ações de juros e nas small caps. A Porto Asset projeta Selic a 13,5% até o final de 2026 e a 12% ao longo de 2027. Se esse ciclo se confirmar, o desconto atual de 10% das small caps em relação à sua média histórica vira o trade da convergência que os gestores locais estão aguardando.
Os dois marcadores para acompanhar nos próximos dias: o nível do DI para janeiro de 2029 — se cair abaixo de 13,3%, o mercado estará precificando normalização; e os resultados da Usiminas nesta sexta-feira, que abrirão a temporada e darão o tom para o setor industrial. O que provaria o cenário pessimista errado é simples: um acordo de cessar-fogo com reabertura do Ormuz nas próximas semanas. Até agora, os sinais caminham na direção oposta.